sexta-feira, 22 de novembro de 2019

A arrumação

Alguém mora numa casa pequena e, no correr dos anos, vai juntando muitos trastes nos cômodos. Muitos hóspedes trouxeram objetos e, quando se foram, deixaram as malas. É como se ainda estivessem aqui, embora tenham partido há muito tempo, e para sempre.

Também o que o próprio dono ajuntou permanece dentro de casa. É como se nada tivesse passado nem se perdido. Mesmo às coisas quebradas se apega a lembrança. E assim elas ficam e tiram o espaço para coisas melhores.

Só quando o proprietário está quase sufocando é que ele dá início à arrumação. Começa pelos livros. Será que ele vai querer contemplar eternamente as mesmas velhas imagens e tentar entender doutrinas e histórias alheias? Assim, remove o que havia muito tempo estava liquidado, e os cômodos ficam amplos e claros.

Então abre as malas alheias e examina se ainda encontra algo utilizável. Aí descobre algumas preciosidades e as coloca à parte. O resto ele carrega para fora.

Joga as velharias numa cova profunda. Cobre-a cuidadosamente com terra e depois planta grama por cima.

Existem histórias que são cercas. Elas comprimem e isolam. Quando nos acomodamos, elas nos proporcionam segurança. Mas quando queremos ir em frente, bloqueiam o nosso caminho. Histórias desse tipo nós próprios nos contamos, às vezes, e a chamamos de recordações. Porém muitas vezes nos contamos o que na época foi mau e nos feriu, mas não o que também nos libera. Então a lembrança se torna uma amarra, e a nossa liberdade de movimento fica reduzida.
(Bert Hellinger)

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